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Os professores de administração e o mercado de trabalho

Carlos Osmar Bertero

A expansão da educação superior em nosso país  foi impressionante. Embora ainda seja considerada insuficiente quando comparada com outros países, incluindo alguns latino-americanos, não há dúvida que em termos absolutos atingiu números respeitáveis. Em 1960 para uma população de 70 milhões tínhamos apenas 100.000 matriculas no terceiro grau. Atualmente para uma população de 190 milhões  nos acercamos dos 5 milhões de matrículas. Como é conhecido, aproximadamente 14% destas matrículas estão em cursos de graduação de administração, o que nos coloca diante de nada menos do que 700.000 alunos.

Conseqüentemente expandiu-se o mercado de trabalho de pessoas ligadas aos serviços educacionais.  O aumento de cursos de pós-graduação    stricto sensu  também é parte desta cadeia na medida em que a legislação vem obrigando que professores, mesmo atuando apenas na graduação, exibam titulação de pós-graduação. Isto levou a que os nossos peculiares MBAs, iniciados como cursos de educação executiva, voltados portanto a um público estritamente profissional, acabasse por conferir aos que concluíssem os cursos com um TCC o título de especialista, também aceito para o exercício do magistério universitário.

Como a maioria dos cursos de graduação em administração funciona apenas em período noturno, ficou mais fácil para muitos o desenvolvimento de carreiras mistas, ou seja, um profissional de administração que trabalha em tempo integral  como executivo ou consultor, à noite trabalha como professor. Isto vem permitindo que um sistema que cresceu tanto em tão pouco tempo continue a conseguir mão de obra docente para atendimento de milhares de classes. 

Nos dias atuais carreiras executivas são bem menos previsíveis e estáveis do que num passado não tão distante. Por isso não é incomum que pessoas de meia idade e na metade de suas carreiras optem ou se vejam  obrigadas a buscar alternativas profissionais. O magistério universitário tem sido uma opção para muitos, particularmente na área de administração.

Da mesma maneira que o mercado respondeu com eficaz prontidão à demanda pelo aumento do número de vagas, pela criação de um número elevado de escolas privadas sob a forma de faculdades isoladas, centros universitários e universidades, igualmente se expandiu a oferta de professores universitários. O mercado acabou por estabelecer o “equilíbrio” entre oferta de professores e vagas para que lecionassem com níveis salariais que não chegam a ser considerados satisfatórios, mesmo levando-se em conta o nível de renda do país. Como outras profissões de nível universitário, outrora, muito bem remuneradas, o professor universitário se comoditizou e  se proletarizou.  O professor modal recebe várias designações, entre afetivas e auto depreciativas, como auleiro, professor taxista, professor bom-bril, etc,, dependendo da região do país. O “sucesso” do docente e  até mesmo a manutenção da precária renda dependerá  de várias competências performáticas. O mais bem sucedido parece ser o especialista em entreter classes com um evento já designado de “shawla”. Trata-se de uma aula tipo show, onde o professor se esmera como “entertainer”, assegurando aos alunos momentos agradáveis, descontraídos e sem qualquer ameaça de que venham a apreender alguma coisa ou tenham que ler ou executar qualquer tipo de trabalho escolar. A aprovação está previamente assegurada desde que se mantenham em dia os compromissos com a tesouraria da instituição de ensino superior.

E acima deste mercado de trabalho para  docentes comoditizados e onde se encontra a grande demanda e a oferta não menor de docentes está o mercado restrito, de uma boutique de alta classe,  onde operam os NDPs.  Diferentemente da maioria comoditizada são escassos, de difícil imitação e de custosa substituição. Alguns chegam a ser até  organizationally embedded, dada suas lealdades e a  longa permanência em suas instituições. Diferentemente da maioria de seus colegas não precisam dar “shawlas Tem que se especializar noutro tipo de show. Para alguns absolutamente eletrizante, para outros um pouco tedioso, cujos resultados são artigos, papers e relatórios de pesquisa onde rigor e relevância por vezes se defrontam desfavoravelmente.  Uma das nobres missões deste grupo, que é objeto da prática de uma estratégia diferenciadora, em oposição à grande maioria onde predomina a liderança em custo, é exatamente a de preparar docentes para ensinar em cursos profissionalizantes  de graduação.

O cotejo destas duas realidades aponta para uma das dificuldades da área de administração e cuja solução não parece estar no horizonte perceptível. Os critérios que nós próprios estabelecemos para avaliação de nossos cursos stricto sensu  tende a aumentar esta lacuna. Não se opõe aqui afrouxamento  de critérios, mas talvez algum tipo de revisão. Um indicador importante na avaliação da competência científica e tecnológica de um país é a chamada “taxa de conversão”, ou seja, a capacidade de transformar conhecimento em produtos e serviços que dinamizem a economia e tragam benefícios à sociedade como um todo. Talvez devêssemos pensar numa taxa de conversão para que o universo do stricto sensu convertesse conhecimentos para os colegas que ensinam no grande universo  onde aguardam centenas de milhares de alunos. Isto ajudaria a diminuir a lacuna entre os dois mundos e a talvez fundir rigor e relevância.

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