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Pesquisa Avançada

Informativo 4/Jul - Ago - Set/2004


Uma agenda de pesquisa em administração?

Há evidências de inquietações na nossa comunidade acadêmica associadas à qualidade e, talvez mais importante, às conseqüências ou repercussões no mundo das organizações da produção de nossos pesquisadores. A questão metodológica e a pouca relevância dada ao contexto brasileiro já estiveram no cerne da discussão, como bem ressaltaram recentemente nesta coluna os Professores Bertero e Roesch.

Entendo que os quantitativos de artigos produzidos nos últimos anos (como, por exemplo, os mais de 3.000 submetidos para o próximo EnANPAD), são impressionantes e revelam a pujança da área. Mas a questão que não quer calar, por não ter ainda uma resposta satisfatória, é “Será que se tem acumulado e difundido conhecimentos organizacionais de boa qualidade e proporcionais aos esforços despendidos por nossos pesquisadores?”. A resposta é seguramente, não.

As causas são de ordem diversa e incluem: (i) o relativo desprestígio da área junto aos órgãos de fomento, o que acarretaria sérias restrições de verba para conduzir as pesquisas mais prolongadas; (ii) a falta de continuidade nas temáticas de pesquisa (óbvio que há exceções), resultante talvez de uma certa falta de perseverança do docente e de seu desvio de interesse para analisar o modismo (se você não tem conhecimento do que foi publicado nas revistas do mundo executivo poderá ser taxado de teórico); (iii) a eterna falta de tempo para maturar cada trabalho acadêmico, que é decorrente da necessidade de se complementar a renda mensal e da condução das atividades de ensino (a taxa de submissão de trabalhos no último momento para os encontros da ANPAD é alucinante); além (iv) da reconhecida individualidade dos pesquisadores que, em sua maioria, só são capazes de trabalhar em grupos reais se os demais integrantes forem subordinados. Tudo isso, mas não apenas isso, de certa forma influencia a resposta da pergunta acima.

Todavia, penso que a questão principal (e anterior) é, de uma maneira geral, não sabermos, com o mínimo de precisão, o que deveríamos pesquisar nem termos um certo balizamento de nossas prioridades. Antes que o leitor mais precipitado mencione que se deseja engessar o pensamento, esclareço que não é de forma alguma esta a intenção, mas estou seguro da necessidade de se ter um mínimo de ordem e definição de prioridade em face da séria restrição de recursos financeiros para que haja avanço científico efetivo. Antecipo também que sempre seria preservado espaço para a inovação “realmente nova”, sem esquecer que a área caracteriza-se por ser de ciência social aplicada.

Não se esquecendo de que temos um dos maiores contingentes de mestrandos e doutorandos no Brasil disponíveis para pesquisa, estou cada vez mais convencido de que trabalhamos muito, mas acumulamos pouco conhecimento. Ou seja, carregamos mais do que tocamos pianos. Um exemplo: a maior parte dos livros didáticos de boa qualidade continua sendo traduções de originais elaborados para outro contexto sócio-cultural-econômico que não o brasileiro. E, mais sério, talvez não estejamos fazendo bom uso, quando se considera no longo prazo, dos parcos recursos financeiros, mas abundantes recursos humanos, que estão ou são feitos disponíveis.

Já há algum tempo tenho levantado a questão da necessidade de construção de uma agenda para a pesquisa em administração (para ser justo, na área de Estratégia das Organizações). Confesso que têm sido conversas isoladas ou em pequenos grupos, em especial nos encontros da ANPAD, oportunidade em que se reúnem novos e experientes pesquisadores entusiasmados e comprometidos com a ciência administrativa.

Desejando instigar a discussão gostaria de formular e ao mesmo tempo tentar responder as seguintes perguntas: O que deveria conter a mencionada agenda? Quais seriam suas principais vantagens? O que, afinal, nós ganharíamos com ela? Sem pretender esgotar a reflexão, acredito que poderíamos ter um senso de direção sob forma de documento (talvez aprovado pela assembléia dos associados da ANPAD) para negociarmos fontes de financiamento com as tradicionais agências de fomento e, quem sabe, com as próprias organizações públicas e privadas e associações representativas. A conseqüência imediata seria a redução em muito do balcão de pedidos atual que caracteriza a área. Uma outra vantagem decorreria da possibilidade de aglutinar esforços acadêmicos para o fortalecimento de grupos de pesquisas interprogramas, ajudando-os a se tornarem de excelência tomando como base o conhecimento existente e desenvolvendo novos com possibilidades mais concretas de inserção internacional. E, por fim e mais importante, teríamos condições objetivas para acumularmos conhecimentos sistematizados que desvendassem as nossas práticas e possibilitassem a criação de teorias brasileiras.

Um ponto final, a questão deve e precisa ser aprofundada e refletida, suas respostas não serão uma panacéia, mas seu processo de construção, necessariamente coletivo, poderá auxiliar em muito, no longo prazo, a consolidação da parte ciência dessa área de conhecimento.

Walter Fernando Araújo de Moraes
Universidade Federal de Pernambuco/UFPE
Programa de Pós-Graduação em Administração/PROPAD




V Encontro de Pesquisadores
De 15 a 17 de setembro, ocorre o V Encontro de Pesquisadores da Faculdade de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis de Franca (SP), com o tema Administração para o Desenvolvimento Regional. O envio de papers e painel para participação no encontro deve ser feito até o dia 1º de agosto. Outras informações através do site www.facef.br.

Primeiro Encontro de Administração Pública e Governança - EnAPG
A ANPAD e a EBAPE/FGV estão organizando o Primeiro Encontro de Administração Pública e Governança - EnAPG. O evento será realizado de 17 a 19 de novembro, no Rio de Janeiro. Os trabalhos podem ser submetidos para avaliação até o dia 2 de agosto. A comissão organizadora é formada pelos professores Clóvis L. Machado-da-Silva (UFPR e ANPAD), Deborah Moraes Zouain (EBAPE/FGV), José Antonio Gomes de Pinho (UFBA), José Matias Pereira (PPGA/UnB), Luciano Junqueira (PUC/SP) e Marco Aurélio Ruediger (EBAPE/FGV).

I EMA ? Encontro de Marketing da ANPAD
I EMA – Encontro de Marketing da ANPAD será realizado de 5 a 7 de novembro. O evento é resultado de uma parceira da ANPAD com o Programa de Pós-Graduação em Administração da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul PPGA/EA/UFRGS. Os trabalhos devem ser submetidos para avaliação até o dia 26 de julho, e serão avaliados mediante o sistema blind review. Fazem parte da comissão organizadora Carlos Alberto Vargas Rossi (EA/UFRGS), Fernando Bins Luce (EA/UFRGS), Ângela da Rocha (COPPEAD/UFRJ), José Afonso Mazzon (FEA/USP), Rogério H. Quintella (UFBA e ANPAD) e Sérgio Benício de Mello (UFPE).

XXVIII Encontro da ANPAD - EnANPAD 2004
De 25 a 29 de setembro ocorrerá o XXVIII Encontro da ANPAD - EnANPAD 2004. O evento será realizado na cidade de Curitiba/PR e será coordenado pela Diretoria Executiva da Associação composta pelos professores Clóvis L. Machado-da-Silva (CEPPAD/UFPR) – Presidente, Rogério Hermida Quintella (NPGA/UFBA) – Diretor Científico e Paulo Tromboni de Souza Nascimento (FEA/USP) – Diretor Administrativo.


BID e FGV organizam conferência sobre remessas
O Fundo Multilateral de Investimentos (FUMIN) do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Fundação Getulio Vargas organizaram, em maio de 2004, a primeira Conferência Nacional sobre "As Remessas como um Instrumento de Desenvolvimento", no Rio de Janeiro.
Foram discutidos o impacto econômico das remessas no desenvolvimento local e as oportunidades geradas, o impacto das remessas em nível nacional no Setor Financeiro Brasileiro, assim como o aperfeiçoamento da canalização de mais recursos pela via formal bancária do país.


EBAPE/FGV no Clube de Roma
O professor da Ebape/FGV, Alexandre Linhares, foi selecionado como novo membro do Think Tank Thirty, o mais novo grupo do Clube de Roma (COR). Reunindo cientistas, economistas, governantes e civis, a organização busca um entendimento mais profundo da problemática mundial, conceito desenvolvido pelo Clube para analisar o cenário dos principais problemas da esfera política, social, econômica, tecnológica, ambiental e cultural que a humanidade enfrenta atualmente. Outras informações através dos sites www.clubofrome.org e www.clubofrome.org/tt30.


Professor da EBAPE/FGV apresenta trabalho em congresso internacional
O Prof. Vicente Riccio fez apresentação, em Chicago/EUA, intitulada "Media, Justice Images, and Brazilian Reality Televison" no Congresso Anual da Revista Law and Society, principal publicação norte-americana de estudos sócio-jurídicos.

EBAPE/FGV promove Seminário de Educação Corporativa
De 7 a 9 de junho, a Ebape realizou o seminário nacional Educação Corporativa: Desenvolvendo e Gerenciando Competências, sob a coordenação da professora Fátima Bayma de Oliveira. O principal objetivo do encontro foi promover, a partir da visão de renomados especialistas na área, o debate acerca dos últimos avanços no campo da educação à distância, e-learning e da educação corporativa.

Professora da EBAPE/FGV participa em Seminário no Chile
A Profa. Sonia Fleury, nos dias 21 e 22 de junho, participou do Seminário Democracia, Economía y Ciudadanía. No evento foi discutido o polêmico relatório do PNUD "La Democracia en América Latina: Hacia uma democracia de ciudadanias y ciudadanos", que comprova as debilidades da democracia na América Latina e os riscos disto para a governabilidade.

FACEF -FRANCA-SP promove encontro de pesquisadores
Nos dias 15,16 e 17 de setembro de 2004 acontecerá o V Encontro de Pesquisadores FACEF-FRANCA : Administração para o Desenvolvimento Regional. O envio de papers e painel para participação no Encontro poderá ser feito até o dia 01 de agosto de 2004. Maiores informações no site www.facef.br.

Universidade Estácio de Sá abre inscrições para Curso de Mestrado
Até 2 de agosto, estão abertas as inscrições para o curso de Mestrado em Administração e Desenvolvimento Empresarial na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. A universidade está oferecendo 20 vagas para o curso, que terá suas áreas de concentração em Estratégias e Gestão, Tecnologias e Gestão, e Finanças e Economia Empresarial. O edital do exame está disponível no site www.estacio.br/mestrado.


Professor inicia programa de pós-doutorado
O Prof. Jorge Katsumi Niyma, coordenador do Programa Multi-institucional de Contabilidade da Universidade de Brasília, Federal do Rio Grande do Norte, Federal da Paraíba e Federal de Pernambuco está realizando seu pós-doutorado na Nova Zelândia, um dos países da chamada "escola britânica" de contabilidade.


PPGA CNEC/FACECA promove encontro científico
O Mestrado em Administração e Desenvolvimento Organizacional da Faculdade Cenecista de Varginha (Faceca) está organizando o II Encontro Científico da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC). O evento será realizado nos dias 9 e 10 de julho, em Varginha (MG). Outras informações através do site www.faceca.br.

Trabalho de pós-graduação da PUCPR é finalista do 4º Prêmio Ethos Valor
A tese de pós-doutorado Responsabilidade Social e Estratégia Internacional: Pressupostos Teóricos e Diretrizes para Atuação de Multinacionais em Países em Desenvolvimento, dos professores e mestres em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Queila Regina Souza e Elói Danke Junior, é uma das finalistas do 4° Prêmio Ethos Valor. Além da indicação, a universidade recebeu uma menção honrosa do instituto, e o orientador do trabalho, professor Heitor Kato, ganhou uma coleção completa de livros que tratam sobre responsabilidade social.

PPAD/PUCPR premiada em congresso sobre estratégia
O professor do Programa de Pós-Graduação em Administração da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Eduardo Damião da Silva, recebeu a menção honrosa na área Redes Organizacionais do XVII Congresso Latino-Americano de Estratégia – Slade 2004 – pelo trabalho Centros de Serviços Compartilhados e a Gestão de Vínculos: Uma Análise Integrada. O congresso foi realizado em Santa Catarina, de 28 a 30 de abril.

UFES promove seminário internacional
O Programa de Mestrado em Administração e o Departamento de Administração da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) realizaram um seminário internacional sobre segurança do trabalho, durante os dias 15 e 16 de abril. O evento contou com a presença do professor e doutor Rémy Jean, da Université de Provence (França), e da professora e doutora Daisy Cunha, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).


UFLA abre inscrições para Cursos de Mestrado e Doutorado em Administração
Durante todo o mês de setembro, o Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal de Lavras (SC), PPGAD/UFLA, estará aceitando inscrições dos interessados em participar do processo seletivo para os cursos de Mestrado e Doutorado em Administração. Outras informações podem ser obtidas através do site www.prpg.ufla.br ou pelo e-mail ppga@ufla.br">ppga@ufla.br.


Prêmio Professor Eliseu Martins- FUCAPE/ES
A Fundação Instituto Capixaba de Pesquisas em Contabilidade, Economia e Finanças (Fucape) realiza a segunda edição do prêmio Professor Eliseu Martins, conferido anualmente ao melhor Trabalho de Conclusão de Curso produzido pelos alunos de instituições de ensino superior de todo o Brasil. As inscrições para o prêmio podem ser feitas até o dia 12 de julho. Outras informações no site www.fucape.br/premio.asp.


UFRGS cria Central de Estágio
A Escola de Administração da UFRGS está oferecendo desde abril passado o EA Estágios. O objetivo é contatar e cadastrar empresas interessadas Desde abril, a Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) oferece os serviços de uma central de estágios, a EA Estágios, que tem o objetivo de contatar e cadastrar empresas interessadas em receber currículos dos alunos que procuram estagiar na área. Demais informações podem ser obtidas através do e-mail eaestagios@ea.ufrgs.br">eaestagios@ea.ufrgs.br.


UFRGS abre seleção para mestrado e doutorado
Entre 13 e 29 de outubro, o Programa de Pós-graduação da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) receberá as inscrições de candidatos para a seleção aos cursos de mestrado acadêmico e doutorado, com início das aulas em 2005. Outras informações através dos sites: www.ppga.ufrgs.br/posgraduacao/mestrado/academico/mestr.acad.asp e www.ppga.ufrgs.br/pos graduacao/doutorado/doutorado.asp.

PPGA/EA/UFRGS criando casos
O professor da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Luis Felipe Nascimento, reúne mensalmente um grupo de colegas para a formação de "cases" que abordam a complexidade na interação de diversas áreas das empresas. Esta atividade foi motivada por um curso desenvolvido pelo professor durante o ano de 2003 na Harvard Business School.


UNISINOS abre nova turma em 2004/02
Uma nova turma do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) iniciará suas atividades no dia 12 de agosto, e as inscrições podem ser feitas até 16 de julho. Maiores esclarecimentos através do e-mail mestrado@mestrado.unisinos.br">mestrado@mestrado.unisinos.br.


UNIFECAP abre inscrições para cursos de mestrado
Os Programas de Mestrado em Administração de Empresas e em Controladoria e Contabilidade Estratégica do Centro Universitário Álvares Penteado já estão com as inscrições abertas para o processo seletivo 2005. Maiores informações pelo site www.fecap.br.


EBAPE/FGV abre inscrições para cursos de mestrado e doutorado
A Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas abrirá inscrições para o processo seletivo 2005 dos Cursos de Mestrado em Administração Pública e Doutorado em Administração no mês de outubro. Maiores informações através do site www.ebape.fgv.br ou pelo e-mail jolira@fgv.br">jolira@fgv.br.

EBAPE/FGV lança curso de especialização em gestão de instituições de ensino
A Ebape/FGV lança um novo curso, o MBA Gestão de Instituições de Ensino. O objetivo é proporcionar a compreensão e análise sobre as variáveis políticas, econômicas, sociais, tecnológicas, educacionais e de gestão que têm afetado os resultados das instituições brasileiras de ensino, além de fornecer informações e potencializar o aprendizado da gestão profissional conducente à qualidade do ensino e à legitimação das instituições educacionais. O curso tem início previsto para agosto de 2004. Maiores informações pelo e-mail deborah@fgv.br">deborah@fgv.br

FEAD abre inscrições para curso de mestrado
O Núcleo de Pós-graduação da FEAD - Minas está com as inscrições abertas para o Curso de Mestrado em Administração até o dia 31 de julho. A área de concentração do mestrado em Administração é Gestão Estratégica de Organizações, com linha de pesquisas em Estratégia e Competitividade, e Organizações, Gestão e Mudanças. Maiores informações pelo e-mailerica.freitas@fead.br"> erica.freitas@fead.br ou através do telefone (31) 3281-1330.


Quem Responde pelo Desempenho Limitado da Produção Científica em Administração no Brasil?
Diversas autocríticas sobre a produção do conhecimento científico em Administração no Brasil têm sido veiculadas nos encontros da ENANPAD. Diz-se que a ciência brasileira na área da Administração não avança por que importamos modelos teóricos, temas de pesquisa e metodologias, em lugar de desenvolver algo original. Sobretudo, que copiamos mal, e desenvolvemos pesquisas insuficientemente delineadas, metodologicamente confusas, e com pouco manuseio de dados empíricos.

Abundam especulações sobre os fatores que levam à formação deste quadro desanimador. Uns sugerem que a ênfase na quantidade, na massificação e na subordinação às estatísticas de sucesso conduzem à perda de qualidade. Outros acreditam que este processo é inevitável, mas pode levar à aprendizagem. Outros, ainda, atribuem o problema à própria natureza da área de Administração, onde a urgência para solucionar problemas organizacionais práticos estimula a criação de modismos e impede espaços de reflexão e criação teórica. O curioso é que as universidades no exterior também estão sofrendo pressões semelhantes. É claro que o volume de recursos disponível de que dispõem para a pesquisa nem se compara com o que temos no Brasil – basta entrar em suas bibliotecas. No entanto, houve redução no apoio financeiro por parte dos órgãos de pesquisa. E os salários dos professores já não são tão atrativos como costumavam ser. Ainda assim, o nível de qualidade de sua pesquisa tem se mantido estável.

O que me faz pensar que talvez nossas autocríticas, estejam privilegiando de forma exagerada fatores institucionais ou organizacionais. E talvez seja o caso de examinar-se o quê os centros de excelência no exterior possuem (além de melhores recursos) que não conseguimos desenvolver na nossa comunidade acadêmica. Sugiro que as autocríticas atribuem ênfase exagerada a fatores contextuais, como explicação para o nosso desempenho limitado. É hora de tentarmos examinar alguns outros aspectos individuais e grupais que favorecem a qualidade do trabalho científico. Neste comentário vou ater-me a fatores, que no meu entender explicam a questão, tais como a falta de rigor metodológico, o comodismo, a impaciência e o individualismo.

Não defendo uma orientação metodológica específica, mas um trabalho de nível científico aceitável. Métodos e técnicas de pesquisa em ciências sociais, desenvolvidos no exterior, têm se multiplicado e estão disponíveis para serem utilizados, testados ou modificados em outros contextos. Enquanto isso, no Brasil, poucos autores utilizam o que há de mais novo em metodologia para a análise do material empírico. Evitamos a análise quantitativa, porque é muito complicada, ou porque exige uma base de dados muito grande e alegamos não ter recursos para conduzir grandes surveys e estudos longitudinais. Por outro lado, deixamos de explorar adequadamente o potencial da pesquisa qualitativa, algo notável em pesquisas desenvolvidas por meio de estudos de caso. Por exemplo, nos trabalhos que utilizaram o método do caso no ENANPAD 2002 observei que, em muitos casos, a análise do material empírico é fraca, mascarada por tonalidades prescritivas, e há pouco esforço de abstração do pesquisador tanto para generalizar práticas, como para criar teoria local. Ou seja, deixamos de usar o estudo de caso para revelar algo novo, original, dadas as características do contexto local. E passamos, predominante, a usar o caso para exemplificar uma teoria estabelecida, usualmente sem criticar a teoria a priori.

Talvez sejamos comodistas. É mais fácil usar modelos externos do que construir teoria com base na realidade brasileira. É mais barato replicar pesquisas do que desenvolver pesquisa original. É mais conveniente adaptar instrumentos de coleta e análise do que criar algo novo. Sobre este ultimo item, por exemplo, seria oportuno indagar quem entre nós já criou um instrumento original para medir atitudes individuais, seguindo o penoso processo de elaboração de uma escala?, ou seja: iniciar com entrevistas em profundidade visando explorar o contexto e, assim, identificar as expressões peculiares dos respondentes, compor o pool de sentenças, aplicar o instrumento, e, por fim, selecionar as sentenças que comporão a escala.

O trabalho científico é demorado. Entre um working paper e um artigo publicado em revista de reputação internacional, há no mínimo dois anos de trabalho. No Brasil, a impaciência impera sobre a disciplina e a reflexão na pesquisa. A coleta de dados, com freqüência, é assistemática. A análise é abreviada. Analisar, refletir e relatar leva muito tempo. E parece que não podemos perder tempo. Alguns autores já observaram que em nossos congressos, constata-se uma alta proporção de ensaios em relação aos trabalhos empíricos. Artigos considerados teóricos, muitas vezes, contem modelos construídos com base em especulação ou observação assistemática da realidade, não demonstrando evidência de que o pesquisador seguiu um processo analítico de busca de padrões, comparações, teste e criação de conceitos. Em artigos que contem dados empíricos, em geral, há uma insuficiente exploração destes.

Finalmente, o relato da pesquisa, com freqüência, desmerece o trabalho que foi realizado. Em parte porque faltou reflexão; em parte porque faltou revisão. É necessário um tempo para voltar ao artigo e agregar-lhe valor. É exatamente este processo demorado que conduz à qualidade do texto final. Além disso, possivelmente faltou crítica por parte dos colegas. Ao observar o desenvolvimento de trabalhos científicos no exterior, concluo que muito da sua qualidade depende da colaboração entre os pares. O trabalho é primeiro lido e criticado pela comunidade local. Ao ser submetido à publicação, o trabalho é revisado por avaliadores anônimos que produzem relatórios de duas a cinco páginas de comentários e sugestões de bibliografia. Um artigo submetido pode voltar até três vezes aos avaliadores originais e ainda mais vezes aos editores e autores, para que revisem o texto. Há pouco ouvi um comentário sobre um artigo submetido a uma das revistas de ponta na área que voltou dez vezes ao autor para reformulações. Enquanto isso, no Brasil, minha experiência pessoal sempre foi a de publicar trabalhos virgens, que não foram debatidos com os colegas. Parece que não consideramos como parte do nosso trabalho a leitura e crítica da produção do outro. Quando o fazemos, a nossa resposta é lenta e pouco contribui para a qualidade do seu trabalho. Ou, ainda, receamos circular nossos artigos em construção para que outros os critiquem. Ou tememos que copiem nossas idéias. Em casos extremos, observa-se a formação de guetos, onde a atitude é: “o tema é meu e ninguém pode estudá-lo”, o que, justamente, impede e afasta a criação de interlocutores. Predomina a idéia de que a crítica é algo negativo; que é uma crítica pessoal aos autores do trabalho. A falta de debate e crítica emperram a qualidade da produção individual e inviabilizam a construção do conhecimento prático ou teórico.

Apesar de tudo, queremos reconhecimento e inserção no circuito de produção científica internacional. Na verdade, a participação de alguns colegas em um ou outro congresso internacional, não permite acompanhar os debates que evoluem nos centros de excelência no exterior. O que se tem no Brasil é uma colcha de retalhos. E a sensação de alguém, como eu, que vive no exterior já há sete anos, é que nunca vamos alcançar o debate. Selecionamos um tema que é parte do debate externo, elaboramos algumas pesquisas locais e, quando nos damos conta, o debate no exterior já avançou , ou enveredou-se por outros caminhos. Observo o esforço desesperado de colegas que visitam as bibliotecas, copiam artigos e programas de cursos – como eu sistematicamente o fazia, em visitas periódicas – como tentativa de apreender o que há de novo na área. Mas a defasagem não diminui; ela se expande, à medida que os centros de pesquisa multiplicam-se a nível mundial. O fato é que não produzimos trabalhos de ponta na área de gestão em nosso País. E nossa atitude não tem sido voltada a contribuir para o bolo da produção científica, mas a de esmolar suas migalhas.

A palavra de ordem é internacionalização. Mas, se a nossa estratégia é apenas copiar o que se debate no exterior, estaremos condenados a criar pesquisa de pouca relevância para nosso contexto. O fato é que a ciência da Administração é extremamente volúvel e reativa a aspectos ambientais e institucionais. Se na década de 80, a ênfase no Ocidente era estudar a Administração Japonesa; agora a moda é estudar a Administração Chinesa, dada a abertura deste novo mercado para as empresas do Ocidente. Até que ponto esta virada é prioritária para a pesquisa acadêmica entre nós?

Sugiro que é fundamental também desenvolver pesquisa local de alta qualidade. Precisamos desvendar nossas práticas, apresentar sugestões para resolver problemas sociais e organizacionais e criar teoria local. Isto não impede a nossa inserção no circuito científico internacional. Acredito haver interesse no exterior em conhecer modelos originais que expliquem as peculiaridades da gestão no Brasil. Tanto a pesquisa original como a replicação são caminhos que abrem possibilidades para estudos comparativos. Necessitamos desenvolver e multiplicar pesquisadores hábeis locais. Está na hora de valorizar o rigor metodológico, a seriedade, a persistência, e a disciplina de trabalho como qualidades imprescindíveis do pesquisador. Acima de tudo, é preciso criar uma comunidade de pesquisa atuante, onde a colaboração entre os pares, e a ênfase no debate e crítica sejam a norma e não a exceção.

Texto publicado originalmente na revista Organizações & Sociedade, v. 10, n. 28, p. 165-167, set./dez. 2003. Agradecemos ao Editor da O&S a gentileza de autorizar a exposição do texto em tela na seção 'Opinião' deste site.




Cadernos EBAPE.BR
Os Cadernos EBAPE.BR, uma revista da Ebape/FGV, recebeu a classificação Nacional B no Qualis/Capes. O professor Marcelo Milano Falcão Vieira, editor da revista, agradece não só aos que compõem o quadro editorial, mas também aos autores que colaboram com artigos pertinentes aos leitores da área.

Revista FACEF-Pesquisa
A Revista FACEF-Pesquisa, do Programa de Mestrado em Administração da Faculdade de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis de Franca (SP), está recebendo e selecionando artigos. Os interessados devem encaminhar seus trabalhos para o e-mail posgraduacao@facef.br">posgraduacao@facef.br.

Revista ADM.MADE
A Revista ADM.MADE, editada pelo Programa de Mestrado em Administração e Desenvolvimento Empresarial da Universidade Estácio de Sá (RJ) e qualificada no Qualis/Capes, está recebendo artigos para os próximos números. Os trabalhos devem ser submetidos eletronicamente através do site www.estacio.br/revistamade para aprovação. Outras informações podem ser solicitadas pelo e-mail mestradoadministracao@estacio.br">mestradoadministracao@estacio.br

Pesquisa Qualitativa em Administração

O livro Pesquisa Qualitativa em Administração, organizado pelos professores Deborah Moraes Zouain e Marcelo Milano Falcão Vieira, da Ebape, foi lançado pela editora da FGV. A publicação reúne contribuições pertinentes para o aperfeiçoamento da metodologia de pesquisa, focalizando em uma temática específica: a pesquisa qualitativa. Os 12 autores, entre eles um aluno doutorando, nove professores da Ebape e dois convidados, abordam questões teóricas e epistemológicas e apresentam diferentes aplicações da pesquisa qualitativa em administração.