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Pesquisa Avançada

Informativo 6/Jan - Fev - Mar/2005


Métodos Qualitativos em Administração: Usos e Abusos

Quando se fala de pesquisa qualitativa em administração, faz-se referência a ampla variedade de métodos e técnicas de pesquisa provenientes das Ciências Humanas e Sociais, em particular a Sociologia, a Antropologia e a Psicologia, a maior parte dos quais não se enquadra no paradigma positivista, mas no fenomenológico. Da Sociologia e da Antropologia Social herdamos o método do caso e a etnografia; da Psicologia trouxemos as bases metodológicas para o uso de grupos de foco e de entrevistas em profundidade, além da técnica de incidentes críticos, para citar apenas os mais utilizados hoje em pesquisa qualitativa no Brasil.

A adoção dos métodos qualitativos de pesquisa na área de Administração parece resultar de dois fatores. De um lado, os métodos qualitativos são vistos como mais adequados aos problemas da Administração por terem sido desenvolvidos nos domínios das ciências que lidam com o comportamento humano. De outro, há a crença generalizada de que tais métodos são mais fáceis de utilizar, requerendo menos formação por parte do pesquisador do que aqueles sujeitos ao rigor do método científico e às exigências de conhecimento estatístico. Estas duas percepções encontram-se nas origens dos usos e abusos em pesquisa qualitativa.

Não há dúvida de que os métodos de pesquisa originários das Ciências Sociais e Humanas podem e devem ser aplicados a problemas específicos da área de Administração. No entanto, isto não significa que devam ser necessariamente preferidos aos demais. Não se trata de mediar um conflito entre o qualitativo e o quantitativo, como escolha metodológica. Os métodos – qualitativos ou quantitativos – devem ser eleitos pelo pesquisador em função do problema específico a ser investigado. É o problema que leva à definição do método. E, sem dúvida, as questões com que se defronta o pesquisador em Administração podem exigir o uso de diferentes métodos.

Quando usar os métodos qualitativos? Há acordo quanto a sua utilidade em estudos exploratórios, aqueles em que se tem pouco conhecimento inicial sobre o problema investigado e suas fronteiras. Os métodos qualitativos, quando bem aplicados, permitem explorar melhor as questões pouco estruturadas, os territórios ainda não mapeados, os horizontes inexplorados.

Se, por um lado, não há dúvida quanto a sua aplicabilidade quando se trata de desbravar o desconhecido, não fica claro, por outro, quando utilizar os métodos qualitativos em estudos conclusivos. Embora não existam listas indicando quando devam ser usados, a observação de estudos empíricos realizados indica serem estes a escolha predileta de pesquisadores quando se trata de pesquisas de processos e longitudinais, desenvolvimento de tipologias e análise de culturas e sub-culturas.

A aplicação mais óbvia da pesquisa qualitativa é no estudo de processos. Os processos estudados na área de Administração caracterizam-se pela existência de grande número de fatores intervenientes, em que as relações entre os fatores são complexas e desconhecidas. Os estudos de processo, particularmente quando combinados a estudos longitudinais, sugerem como melhor escolha metodológica a pesquisa qualitativa. No caso de processos decisórios organizacionais, é comum o envolvimento de diversos indivíduos na organização, tornando ainda mais difícil ao pesquisador o entendimento do fenômeno. Mesmo quando se trata de processos decisórios individuais, como aqueles associados a decisões de compra e consumo, são freqüentes a interveniência de outros indivíduos e as influências de grupo. Os estudos de caso aplicam-se particularmente bem ao estudo de processos decisórios organizacionais, enquanto os grupos de foco e as entrevistas em profundidade são recursos metodológicos importantes para o entendimento dos processos decisórios individuais.

Uma segunda grande aplicação dos métodos qualitativos ocorre no desenvolvimento de tipologias. Estes métodos são especialmente adequados para estudar tipos, de modo a identificar suas características e as situações em que ocorrem. Mais uma vez, os estudos de caso são úteis para gerar novas taxonomias, como, por exemplo, no estudo de estratégias empresariais. A técnica de incidentes críticos, por trabalhar com fatos, situações ou eventos extremos, também pode ser utilizada eficazmente no desenvolvimento de tipologias.

Uma terceira grande aplicação da pesquisa qualitativa encontra-se nos estudos de culturas e sub-culturas nas organizações, ou, ainda, sua associação com o comportamento de consumo. Busca-se a chamada “descrição densa”, almejando-se chegar a uma percepção holista do grupo investigado, de modo a identificar suas crenças básicas, valores, medos, esperanças, ou expectativas. A etnografia é, naturalmente, o método por excelência para tal, por permitir uma imersão na cultura do grupo selecionado.

Encontraremos inúmeras outras aplicações para a pesquisa qualitativa em Administração. Estas três grandes aplicações, porém, são aquelas em que o qualitativo se impõe pela própria natureza do problema, que dificilmente poderia ser tratado através de, por exemplo, uma survey ou de um experimento.

Tratemos agora dos abusos. Como espero deixar claro neste ensaio, a idéia de que a pesquisa qualitativa é mais fácil ou exige menos preparo do pesquisador do que a quantitativa é uma ilusão acalentada unicamente pela ignorância. O uso de métodos qualitativos em pesquisa em Administração, ao contrário, constitui-se em um desafio, dada a quase ausência de formação acadêmica específica e de tradição em seu uso entre os pesquisadores da área.

Considere-se, a título de exemplo, o caso da etnografia. Trata-se de um método essencialmente assistemático, flexível e oportunista. Ao iniciar um estudo de campo, dificilmente o etnógrafo tem definido o seu projeto de pesquisa. Ao contrário, o convívio com o grupo estudado e a imersão em sua cultura levam a constante redefinição do problema, à medida que se coletam evidências sobre a realidade concreta objeto de estudo. O projeto de trabalho de campo vai-se alterando, então, de forma oportunista, assim como o protocolo de análise. Os antropólogos, que desenvolveram o método, são treinados por longo período de tempo, através de teoria e trabalho tutorial, incluindo um período de realização de um estudo etnográfico, que pode durar, por exemplo, dois anos.

Evidencia-se, assim, a necessidade de formação e treinamento sistemático no uso dos métodos qualitativos, como é o caso da etnografia. A pesquisa qualitativa não é para amadores. Listo a seguir outros abusos no uso dos métodos qualitativos, de caráter mais específico.

Um erro comum é não reconhecer que o paradigma interpretativista ou fenomenológico assume a subjetividade do pesquisador na escolha de evidências e na interpretação dos fenômenos observados. Para aqueles que defendem este paradigma, a subjetividade encontra-se na essência do conhecimento humano: não há como descartá-la.

Em decorrência do aspecto anterior, aplicam-se critérios positivistas onde domina o paradigma interpretativista. Por exemplo, na maioria dos métodos citados neste ensaio, não é adequado buscar representatividade de amostras, já que não se pretende fazer projeções para outros grupos ou populações. Ao contrário, em grande parte dos métodos qualitativos, os critérios de escolha de respondentes são intencionais, e algumas vezes, inclusive, buscam-se os exóticos, os outliers, os extremos. Em outras palavras, a lógica amostral não deve ser aqui utilizada para definir número de casos ou de informantes e avaliar a incidência de um fenômeno. Em alguns estudos qualitativos inadequadamente conduzidos, o autor detém-se, às vezes, na vã tentativa de explicar sua seleção de respondentes, buscando justificar o que não precisaria e nem deveria ser justificado: escolhas amostrais que, por sua própria natureza, são e devem ser de caráter intencional ou de conveniência.

Como resultado da aplicação de critérios positivistas, outro erro consiste em realizar generalizações estatísticas. Não é incomum encontrar em pesquisas qualitativas em Administração, com pequeno número de casos observados, selecionados por critérios de conveniência ou de forma intencional, tentativas de generalização empírica do tipo: “a maior parte das empresas apresentou tais características”. O tipo de generalização empírica adequado a estes estudos seria, ao contrário, o seguinte: “as empresas com tais características apresentaram tais comportamentos”. Nada se pode inferir sobre a freqüência de dado tipo de empresa na população, mas pode-se afirmar, por exemplo, que determinadas características aparecem relacionadas a dado comportamento.

Outro grande abuso na utilização de alguns métodos qualitativos consiste em confiar em fontes singulares ou superficiais, não realizando a desejada triangulação, ou seja, a busca de evidências convergentes de distintas fontes. Em algumas situações e para alguns métodos, porém, a triangulação pode não ser possível ou necessária. Por exemplo, em estudos de caso, pode haver um único informante sobre determinado assunto em uma empresa e não ser possível ao estudioso obter acesso a documentos sigilosos; ou, no caso de uso da técnica de incidentes críticos, busca-se, efetivamente, a percepção dos informantes sobre determinado evento. Mesmo assim, quando aplicável, a preocupação do pesquisador deve ser a de reunir evidências de fontes distintas.

Em síntese, o uso de métodos qualitativos de pesquisa em Administração tem levado a inúmeros abusos por parte de pesquisadores amadores e inexperientes, resultando em seu descrédito. Toda pesquisa, qualitativa ou quantitativa, exige do pesquisador uma definição cuidadosa do problema, escolha da metodologia a ser utilizada a partir de conhecimento profundo dos métodos e técnicas disponíveis e adequados ao problema, cuidados no planejamento da coleta de dados e na elaboração do protocolo de análise. Os métodos qualitativos não devem ser vistos como panacéia por aqueles que vêem a pesquisa como simples requisito a cumprir em uma carreira acadêmica, mas como desafio e oportunidade para a melhoria da pesquisa em Administração em nosso país.

Angela da Rocha




SIMPOI 2005
Realizado pelo Departamento de Administração da Produção e Operações (POI) da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP), o SIMPOI já se encontra em sua oitava edição. O tema escolhido para o SIMPOI 2005 é 'Operações: Inovações e Tendências'. A idéia é que em 2005, a exemplo dos anos anteriores mas com ênfase acrescida, sirva como um fórum privilegiado para que profissionais práticos, acadêmicos, estudantes, pesquisadores e interessados em geral na área, possam discutir o futuro da área de Gestão de Operações. Mais informações: www.fgvsp.br/simpoi.

MADE promove seminário sobre Redes Empresariais
O Mestrado em Administração e Desenvolvimento Empresarial (Made) estará realizando, em abril de 2005, o II Seminário Internacional de Redes Empresariais: Arranjos Produtivos, Configurações, Estruturas e Atores, promovido e patrocinado pela Universidade Estácio de Sá e pela Finep. Mais informações sobre o seminário estão disponíveis no site www.estacio.br/mestrado.

Tecnologia da Informação na gestão de negócios e programas sociais
O Seminário Nacional de Tecnologia da Informação e da Comunicação Aplicada à Gestão de Negócios e Programas Sociais: Desafios e Propostas Estratégicas foi coordenado pela professora Fátima Bayma de Oliveira, da Ebape/FGV/RJ. Durante o evento, foram discutidos os últimos avanços da tecnologia da informação, da Internet e da TV digital nos negócios e na sociedade, tendo como pano de fundo os desafios da gestão e do planejamento estratégico empresarial, segundo a visão de renomados especialistas, num confronto de idéias em ambiente democrático e transparente. O seminário foi realizado nos dias 24 a 26 de novembro, no Rio de Janeiro.

EBAPE/FGV/RJ sedia conferência da IPMN
'Terceira Geração de Reformas no Brasil e em Outros Países: Atingindo o Alinhamento Governamental, Social e Econômico' foi o tema da edição de 2004 da Conferência da International Public Management Network (IPMN). O evento ocorreu no Rio de Janeiro, entre os dias 17 e 19 de novembro, na Ebape, co-patrocinadora da conferência.


MADE entre os melhores
O Mestrado em Administração e Desenvolvimento Empresarial (MADE), da Universidade Estácio de Sá, foi eleito o 8º melhor mestrado profissionalizante em Administração no país e o 3º melhor no Rio de Janeiro, de acordo com a pesquisa anual da Revista Você SA de novembro de 2004.

EBAPE tem participação expressiva no EMA 2004
Entre os dia 05 e 07 de novembro, a EBAPE participou da primeira edição do EMA, Encontro de Marketing da ANPAD, obtendo a segunda colocação em relação ao número de trabalhos apresentados (sete artigos), resultado de dois grupos de estudo, coordenados pelos Professores Alexandre Faria, Delane Botelho, Eduardo Ayrosa.

EBAPE tem presença ativa no XXIII Simpósio de Gestão da Inovação Tecnológica
A Ebape/FGV participou do XXIII Simpósio de Gestão da Inovação Tecnológica com quatro trabalhos derivados de dois núcleos de pesquisa, coordenados pelos professores Deborah Moraes Zouain e Paulo N. Figueiredo. O evento, que teve como tema central Tecnologia e Desenvolvimento: desafios e caminhos para uma nova sociedade, ocorreu no mês de outubro, em Curitiba (PR).

Professor da EBAPE apresentou trabalho em colóquio em Paris
O professor Rogério Sobreira, da Ebape/FGV, participou do Colóquio sobre Risco em Economias Emergentes, no Centre d’ Estudes et de Recherche Amérique Latine-Europe (CERALE) da ESCP-EAP, em Paris. Na ocasião, Sobreira apresentou o trabalho Sovereign Credit Ratings and Herd Behavior: the Case of Emerging Economies. O encontro ocorreu nos dias 21 e 22 de outubro.

II Prêmio EBAPE-FGV/EMBRATUR de monografias, estudos de caso e reportagens do setor de turismo e hotelaria
A Ebape/FGV, em parceria com o Ministério do Turismo e a Embratur, está lançando o II Prêmio Ebape-FGV/Embratur de monografias, estudos de caso e reportagens do setor de turismo e hotelaria. O objetivo é estimular a reflexão teórica e as práticas concretas sobre o tema, de forma a monitorar as transformações, estimular o debate e elaborar propostas para o turismo brasileiro. As inscrições estão abertas até 16 de janeiro. Para maiores informações, acesse os sites: http://www.ebape.fgv.br/pp/neath ou http://www.embratur.gov.br . Os interessados também podem enviar a solicitação pelo mail neath@fgv.br">neath@fgv.br

Mestrado em Administração da Universidade Metodista de São Paulo é recomendado pela CAPES
O Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGA) da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) foi recomendado com a nota três pelo Conselho Técnico-Científico da Capes. O Curso de Mestrado em Administração (modalidade Acadêmica) lança sua primeira turma em março de 2005. Serão oferecidas 25 vagas, das quais 12 para a linha de pesquisa de Finanças e Controle de Gestão e 13 para a linha de pesquisa de Gestão de Pessoas. O período de inscrições vai de 4 a 26 de janeiro de 2005. Mais informações no site http://www.metodista.br/posadministracao.

Pós-MBA: COPPEAD cria programa avançado para executivos
O Coppead, da UFRJ, acaba de lançar o Pós-MBA, um modelo pioneiro de educação continuada para executivos. O Pós-MBA, também chamado de Programas Avançados Coppead, busca proporcionar a executivos, empresários e consultores pós-graduados em Gestão de Negócios um aprofundamento em temas atuais e complexos de suas áreas de atuação.
Os Programas Avançados Coppead oferecem cursos em Finanças, Marketing e Gestão. Para obter outras informações, basta acessar o site http://www.coppead.ufrj.br; ligar para (21)2598-9800 ou enviar e-mail para avancados@coppead.ufrj.br">avancados@coppead.ufrj.br.


Instituto recebe prêmios por divisão científica no ENANPAD 2004
Dois trabalhos do Coppead, da UFRJ, receberam o Prêmio por Divisão Científica da ANPAD, durante a 28ª edição do Enanpad, realizado nos dias 25 a 29 de setembro, em Curitiba. O trabalho Configurações de Tempo e a Tentativa de Adaptação dos Indivíduos às Mudanças Organizacionais, dos professores Ursula Wetzel e José Roberto da Silva (PUC/Rio), foi o vencedor da divisão de Estudos Organizacionais. Já na divisão de Gestão de Operações e Logística, foi premiado o trabalho Um Estudo do Impacto da Sofisticação Logística dos Embarcadores Brasileiros Industrial no Padrão de Contratação dos Serviços de Operadores Logísticos, de autoria dos professores Paulo Fernando Fleury, Peter Wanke e da pesquisadora Maria Fernanda Hijjar

PUC-SP abre matrículas para MBAS
A PUC/SP, por intermédio de sua Coordenadoria Geral de Especialização, Aperfeiçoamento e Extensão (Cogeae), abre matrículas para três cursos de especialização (pós-graduação lato sensu), que serão oferecidos em 2005: MBA em Economia e Gestão das Organizações de Saúde, MBA em Contabilidade e MBA em Tecnologia da Informação (MBIS-Master Business Information Systems).
As vagas para os cursos são limitadas e informações podem ser obtidas pelos telefones (11) 3873-3155, e-mail info@cogeae.pucsp.br">info@cogeae.pucsp.br e site http://www.cogeae.pucsp.br. São oferecidos descontos especiais para grupos – empresas, escolas ou outras instituições.


RAP premia o melhor artigo de 2003
A professora Maria Ceci Araújo Misoczky, docente da Escola de Administração da UFRGS, ganhou o Prêmio Jorge Oscar de Mello Flôres 2003 pelo seu artigo O Banco Mundial e a Reconfiguração do Campo das Agências Internacionais de Saúde: uma Análise Multiparadigmática. O artigo foi publicado na Revista de Administração Pública – RAP, editada pela Fundação Getulio Vargas, vol.37, n.1, jan./fev. 2003.
A RAP, dirigida e editada pela professora Dra. Deborah Moraes Zouain, é uma revista do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Administração da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas – Ebape/FGV/RJ, que circula desde 1967. Mais informações sobre a revista podem ser obtidas no site http://www.ebape.fgv.br.



O Trabalho do Cientista

O Ser ou não ser cientista, eis a questão...

As reflexões que se seguem tiveram uma origem curiosa; aliás, uma origem dupla, além de curiosa. O primeiro insight veio de uma reunião de pais e mestres, em uma escola de ensino fundamental, quando Karen, a professora, brindou os presentes com o resultado de uma tarefa de ciências, desenvolvida pela 1ª série A: “nossas idéias iniciais sobre os cientistas”.

Para o jovem grupo (quase todos com sete anos de idade) os cientistas: “têm barba, têm bigode, têm cabelos brancos ou são carecas ou usam peruca, são loucos, são velhinhos, usam roupas brancas, usam luvas e lupas, usam sapatos pretos, usam microscópio e máscara, geralmente são americanos, são baixinhos, tem queixos grandes, quase não dormem, têm laboratórios cheios de invenções químicas, tubos de ensaios, fósseis, entrada secreta, muitos computadores, bichos e robôs”.

Ao ouvir a lista, automaticamente executei um check-list mental, aplicando-a a nossa comunidade Anpad. A seguir a “definição operacional” da 1ª série A, muitos de nós poderiam, sim, serem considerados cientistas.

Entretanto, atormentado pelas dúvidas quanto à cientificidade do método, busquei evidências anedóticas: durante um seminário de pesquisa dado a mestrandos e doutorandos, convidei colegas pesquisadores de outros campos, inclusive das chamadas hard-sciences.

A cada ocasião, senti um fosso a separar o que nós pesquisadores da área de Administração praticávamos e o “ser cientista” na perspectiva de outras áreas. Assombrou-me, então, a questão: se não somos cientistas, o que somos? Ou, o que deveríamos ser?

A partir desta questão inicial, me propus a desenvolver uma linha lógica centrada, no “sentido do trabalho do cientista”. Com isso, o desenvolvimento deste ensaio recebeu uma estrutura em três tempos consecutivos. Em primeiro lugar, comentarei brevemente as críticas à produção científica local, ou seja, o fruto do trabalho de nossos cientistas. Em segundo lugar, tratarei da questão do sentido do trabalho do cientista. Em terceiro lugar, abordarei algumas questões básicas sobre o desenvolvimento da ciência administrativa em terras brasileiras, as quais, eventualmente, poderão servir de orientação para futuras reflexões.

Produção científica no Brasil: vigor e autismo

A posição privilegiada deste ensaísta, que durante quatro anos ocupou o posto de editor da RAE-revista de administração de empresas, levou a comprovar na prática uma visão pessimista sobre nossa produção acadêmica.

Vejamos algumas evidências:
• primeiro, apesar de a RAE contar com mais de 350 submissões por ano, completar uma pauta a cada três meses, com sete ou oito artigos, ainda é uma tarefa árdua, a exigir paciência e criatividade;
• segundo, em inúmeras ocasiões, fóruns temáticos não puderam ter continuidade no próprio veículo – apesar do número expressivo de submissões, não se conseguia um número mínimo de artigos em condições de qualidade para completar a seção especial; e
• terceiro, apesar da constante depuração do quadro de avaliadores e aperfeiçoamento do processo de blind review, muitos artigos eram aprovados sem condições mínimas para publicação (apresentando problemas tais como teoria limitada, metodologia inadequada e contribuição científica mínima, quando não todos eles a um só tempo), levando a instituição, em 2004, de uma etapa adicional, denominada “aconselhamento editorial”.

As críticas à produção local, veiculadas em artigos de análise sobre a evolução do campo científico da Administração (como a série recentemente publicada sob o título “RAE-documento”, na RAE), tem sido constantes e, por vezes, desconcertantes. Diversos analistas, entre os quais estão nossos mais experientes pesquisadores, nos vêem como pouco atentos à realidade local, pouco rigorosos quanto a estratégias de investigação, mal informados sobre o estado da arte, periféricos e propensos ao formalismo.

Será tal diagnóstico excessivamente rigoroso? Alguns assim o consideram e apontam como contraponto o vigor do campo. Outros talvez se orientem a comparações com comunidades congêneres no exterior. Quanto a este aspecto, dois pontos devem ser considerados: primeiro, que nossa produção está, a despeito de constante evolução, a grande distância da produção dos centros de referência, em especial em termos de consistência e rigor; segundo, nós devemos considerar que a academia internacional também vive, há alguns anos, crise de orientação e relevância. Talvez não seja, por isso, referência incondicional.

Não creio que seja adequado, neste espaço, estender tal polêmica. Esta se arrasta há muitos anos e pouco evoluiu, além da própria constatação da fragilidade do campo. Talvez uma discussão mais pertinente relacione-se às dificuldades e barreiras para reverter tal quadro. Entretanto, o caminho proposto neste ensaio é de outra ordem: refere-se, como observado no início do texto, a uma reflexão sobre o sentido do trabalho do cientista.

O cientista e seu trabalho

A colega Estelle Morin, da HEC de Montreal, argumenta que o sentido do trabalho se define por seis condições. Proponho, então, examinar uma a uma estas condições, analisando, a partir delas, o trabalho do cientista em nosso campo.

Em primeiro lugar, um trabalho que faz sentido é intrinsecamente satisfatório: desenvolve competências, traz atualização e realização, envolve criatividade e autonomia. Neste ponto, nós pesquisadores da Administração somos verdadeiramente privilegiados: temos liberdade para escolher temas, temos tempo para nos dedicarmos a eles, e quase sempre definimos nosso próprio caminho. A realidade, naturalmente, apresenta barreiras e restrições, mas sem dúvida neste requisito nosso trabalho faz sentido. A nós cumpre definir foco e orientar esforços.

Em segundo lugar, um trabalho que faz sentido é fonte de experiências satisfatórias de relações humanas. Também neste ponto somos privilegiados. Relacionamo-nos com um extrato social de grande vigor intelectual e com profissionais em geral abertos e interessados em aprender. Aqui e ali, sem dúvida, tropeçamos em egos inflados e espíritos pouco iluminados, mas com tato e paciência seguimos tecendo nossas redes, tanto locais e internacionais. Portanto, quanto às relações humanas, podemos afirmar que nosso trabalho faz sentido.

Em terceiro lugar, um trabalho que faz sentido garante a autonomia: ele permite independência financeira e segurança. Pesquisadores não são, de certo, os profissionais mais bem pagos do mercado. A exposição a colegas executivos (bem sucedidos) talvez até provoque inveja aos mais suscetíveis. Porém, a contrapartida é mais que razoável e, considerando as possibilidades de ganhos adicionais, a condição geral do país e o poder relativo de compra, nossos rendimentos são dignos. Quanto a este terceiro ponto, nosso trabalho também faz sentido.

Em quarto lugar, um trabalho que faz sentido mantém ocupado e ajuda a estruturar o dia a dia. Neste aspecto, profissionais de empresas chegam a olhar com enveja nosso modus operandi e nossos horários de trabalho. Em geral, somos donos do relógio e dele fazemos o que nos apraz. Se quisermos nos perder nas horas, deixamos que os turnos nos levem. Se quisermos mais disciplina, nos estruturamos para isso. Sem dúvida, neste ponto nosso trabalho faz sentido. Cabe a nós aprendermos a lidar com a liberdade de escolha.

Em quinto lugar, um trabalho que faz sentido é moralmente aceitável, traz contribuição social e é compatível com valores morais e éticos. É certo que não há nada criminoso ou ilegal em nossa atividade. Porém, e quanto a dimensão da contribuição social? Quanto nós tomamos da sociedade e quanto nós devolvemos a ela? Neste ponto, nosso trabalho deveria fazer todo o sentido, mas será que o estamos conduzindo da melhor maneira? Neste ponto, devo registrar desconforto e dúvida.

Em sexto lugar, um trabalho que faz sentido é realizado de forma eficiente e leva a um resultado, em suma: tem utilidade. Este último ponto está associado ao anterior, e merece a mesma indagação. Quão bem estamos conduzindo nossa atividade? Estaremos de fato nos esforçando para trazer contribuições e gerar impactos para o meio mais amplo no qual vivemos? Ou estaremos nos contentando com baixos padrões, apenas suficientes para nos garantir nossos próprios privilégios?

Uma análise destas seis condições talvez revele, senão uma patologia, ao menos um desvio, relacionado a um comportamento excessivamente auto-centrado. As condições que se referem a nós mesmos, de números 1 a 4, parecem relativamente bem equacionadas. As demais, que se referem ao resultado e impacto de nosso trabalho, talvez não estejam sendo bem atendidas. O resultado é um trabalho que, no entender deste autor, não faz sentido.

Questões de referência

Tendo como pano de fundo as críticas à produção local e a breve análise sobre o sentido do nosso trabalho, cabe tratar da questão da produção, publicação e leitura de artigos científicos, centrais em nossa atividade. Aqui, creio que algumas questões simples e diretas devem ser tratadas:
• Primeiro, porque? Porque escolher determinado tema? Ele de fato representa algo importante e relevante? O trabalho decorrente vai trazer benefício para o desenvolvimento da teoria ou para a prática administrativa? Em sentido mais amplo, o trabalho trará algum impacto positivo para a sociedade e para os indivíduos?
• Segundo, para quem? A quem nosso trabalho se destina? Somente a nós mesmos? A uma platéia que não soma mais que uma dúzia de pares? Ou a uma comunidade mais ampla, de pesquisadores ou, eventualmente, gestores públicos e executivos de empresas?
• Terceiro, como? Como devemos desenvolver nosso trabalho? Como garantir que o ponto de partida é o estado da arte? Como garantir a utilização da melhor estratégia de investigação? Como melhorar o trabalho por meio da participação em eventos e apoio dos pares?
• Quarto, onde? Onde vamos veicular nosso trabalho? Vamos propô-lo para um periódico de primeira linha? Ou vamos nos contentar com um evento acadêmico (que é apenas a primeira fase de desenvolvimento)? Devemos restringir sua veiculação a uns poucos colegas, ou vamos procurar veicular seu conteúdo em publicações de grande circulação ou, eventualmente, em mídias de massa, capazes de atingir o grande público?

Tais questões, embora básicas, são de grande relevância para o cientista. Infelizmente, muitas das discussões que tenho presenciado iniciam pela última pergunta, acerca da publicação. Tal tendência nos afasta perigosamente da condição de cientista. Compete a nós o esforço para contrapor a lógica vigente.

O Painel que originou este ensaio, parte do programa do Terceiro ENEO, ganhou o título de “Publicação de artigos na área de Estudos Organizacionais Brasileiros: problemas e possibilidades". Ora, a questão a ser tratada, me parece, não deve ser a “publicação de artigos”, porém a “leitura de artigos e o impacto que estes artigos podem vir a gerar”; ou seja, deve-se tomar como premissa que a publicação não é um fim em si, porém um meio para atingir um efeito posterior: a utilização do conhecimento no desenvolvimento da teoria ou na prática gerencial.

Ao fixar a discussão na questão da publicação, rendemo-nos ao fenômeno da “produção de artigos”. Aí, qualquer semelhança com princípios e práticas fordistas pode ser mais que mera coincidência. Em contrapartida, se nos fixarmos na questão da leitura e do impacto, colocaremos a nós mesmos um desafio mais condizente com nossa profissão: de gerarmos trabalhos capazes de “fazer diferença”, de trazer uma contribuição digna de publicação. E, talvez assim, podermos nos perceber e tratar como cientistas.

Encerro tomando uma frase emprestada. Trata-se de uma máxima do escritor F. Scott Fitzgerald: “Você não escreve para dizer algo. Você escreve porque que tem algo a dizer”.




ADM.MADE recebe artigos
A Revista ADM.MADE, classificada no Qualis/Capes e editada pelo Programa de Mestrado em Administração e Desenvolvimento Empresarial (Made), está aceitando artigos para publicação. As normas para submissão eletrônica dos textos estão no site www.estacio.br/revistamade. Dúvidas podem ser tiradas pelo e-mail mestradoadministracao@estacio.br">mestradoadministracao@estacio.br

Revista Facef aceita submissão de artigos
A Revista Facef, editada pelo Programa de Mestrado em Administração da Facef, aceita a submissão de artigos. O envio pode ser feito pelo e-mail facefpesquisa@facef.br">facefpesquisa@facef.br. Os artigos enviados pelo correio deverão ser acompanhados de um CD-Rom ou disquete com o arquivo do artigo. A Revista Facef está classificada no Qualis/Capes. Maiores informações e normas de publicações no site www.facef.br

Professor da PUC/PR lança livro sobre Sistemas de Informações

Denis Alcides Rezende lança o livro Sistemas de Informações Organizacionais: Guia Prático para Projetos em Cursos de Administração, Contabilidade e Informática, editado pelo Atlas. A obra está dividida em quatro capítulos: Informação e Sistemas; Sistemas de Informação e o Planejamento Estratégico Organizacional; Projeto e Implementação de Sistemas de Informação; e Perspectivas em Sistemas de Informação.
O livro pode ser adquirido via internet no site www.edatlas.com.br ; fone (0800)14.194



Professores da EBAPE/FGV/RJ lançam livros

• Educação Corporativa: Desenvolvendo e Gerenciando Competências. Organizado pela professora Fátima Bayma de Oliveira e editado pela Pearson Education.
• Saúde, Previdência e Assistência Social: Desafios e Propostas para uma Sociedade mais Justa e Moderna. Organizado pelos professores Fátima Bayma de Oliveira e Istvan Kasznar, editado pela M. Books.
• Regulação Financeira e Bancária. Organizado pelo professor Rogerio Sobreira (org.); Editora Atlas
• Gestão em Turismo e Hotelaria: Experiências Públicas e Privadas. Os professores Luiz Gustavo Medeiros Barbosa e Deborah Moraes Zouain são os organizadores do livro publicado pela FGV/Ebape, Embratur e Ministério do Turismo. Editora Aleph.