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Pesquisa Avançada

Informativo 8/Jul - Ago - Set/2005


Contexto de Referência, Campo e Desenvolvimento: As Universidades no Eixo da Articulação Global-Local *
A complexidade do universo social moldada pelo imbricamento de variáveis diversas não permite tratar temas cruciais, como desenvolvimento, buscando o isolamento de categorias, a fixação de fatores causais ou processos evolutivos lineares. Assim, o discurso contemporâneo sobre desenvolvimento tem como elemento central a articulação.

No Brasil, os enunciados que marcaram a retomada do discurso sobre desenvolvimento tiveram forte assento nas questões ambientais às quais se agregaram dimensões sociais e culturais. O aspecto econômico assumiu o caráter neoliberal, retirando o Estado como motor central do desenvolvimento dos países. A política, também de orientação neoliberal, voltou-se especialmente para as relações internacionais, particularmente para a abertura de mercado, como estratégia para inserção do País no mundo globalizado.

Nesse cenário, o discurso do desenvolvimento, como processo de transformação social, assumiu caráter marginal, pontuado pela busca de soluções endógenas, no sentido mais restrito do termo, gerando ora a guerra fiscal entre estados e municípios, ora ações voluntaristas de caráter quase messiânico.

As circunstâncias que cercam o tema são marcadas, de um lado, pela heterogeneidade social no âmbito de espaços geográficos específicos com o aprofundamento dos níveis de concentração de renda e, conseqüentemente, aumento da exclusão social. Por outro, pelo processo de globalização que, em tese, tenderia a maior homogeneização entre os países, por meio do intercâmbio de conhecimentos, idéias e bens, mas que, na prática, homogeneíza essencialmente padrões de consumo capazes de sustentar o modelo produtivo global determinado pelos países centrais, detentores de capital e tecnologia.

Vê-se, portanto, que no discurso do desenvolvimento local, como estratégia de superação de limitações e diferenças seculares, entrelaçam-se circunstâncias locais e circunstâncias globais. Articulá-las é buscar pontos de conexão que viabilizem modos de pensar e agir capazes de produzir efetivas transformações das estruturas sociais, em todas as escalas.

Dessa forma, o local pode se constituir como espaço viável de elaboração de projetos políticos nacionais, regionais e locais, mas não se pode ignorar que a territorialidade da ação e das relações pode ser, e freqüentemente é, antecedida de direcionamentos originados muito além do local, em escala global, seja por organismos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio, agentes financeiros, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, ou ainda pelas grandes corporações transnacionais.

O local está, assim, sujeito à lógica exógena, predominantemente econômica, amplamente favorecida pelas novas tecnologias de informação e comunicação e pelas estratégias de estabelecimento de um sistema político mundial dominado pelas grandes potências econômicas e militares. Por isso, a estrutura centro-periferia do sistema mundial e o conceito de subdesenvolvimento continuam a constituir categorias centrais nas discussões sobre desenvolvimento em todas as suas qualificações: econômico, social, local ou sustentável.

A caracterização das universidades como instituições sociais e loci da produção científica e tecnológica encontra na sociologia das organizações justificativas importantes e esclarecedoras. Para argumentar que as organizações têm papel determinante no processo de desenvolvimento, recupera-se o conceito de instituição formulado por Philip Selznick, especialmente o caráter específico e a competência distinta que as organizações adquirem porque são produto de pressões e de necessidades sociais.

Max Weber entendia as organizações como profundamente vinculadas à estrutura social e, desta forma, só fariam sentido se, como parte da sociedade, estivessem aí enraizadas. A teoria institucional reforça esses argumentos ao enfatizar os valores, símbolos e mitos que orientam as organizações e, assim, o ambiente que as rodeiam. Portanto, essa abordagem compreende a história e as funções sociais das organizações, criadas e mantidas em razão do grau de legitimidade e institucionalização que são capazes de adquirir.

O enraizamento da instituição universitária na sociedade é significativamente marcado por sua história, determinando um papel fundamental dessas organizações no ambiente social, que influencia e pelo qual é também influenciada. Pode-se inferir, portanto, a capacidade de inserção e de construção de identidade dessas organizações, bem como sua potencialidade de influir no processo de desenvolvimento social, político, econômico e cultural dos países. Isso porque, em tese, ao mesmo tempo em que contribuem para a construção da nacionalidade, impulsionam sua conexão com o mundo, uma vez que seu objeto central é a produção do conhecimento e este é, inerentemente, universal.

Entretanto, ao se reconhecer que a produção científica constitui um campo específico no espaço social, vê-se que o caráter universal do conhecimento sofre restrições; pois, esse campo é o espaço de uma luta, onde o que está em disputa é o monopólio da autoridade científica definida, conforme Pierre Bourdieu, como capacidade técnica e poder social.

Tratar da produção acadêmica, de qualquer país, instituição ou grupo é, então, referir-se a um campo próprio, que se regula por critérios e valores próprios, construídos e reconstruídos por meio de lutas e disputas pelo capital do campo – a autoridade científica. Dessa forma, referir-se ao contexto internacional se justifica porque é neste âmbito que ocorre a disputa e porque o espaço de construção da legitimidade é composto por atores internacionais, isto é, de diferentes nações. A referência pressupõe, então, a presença no campo e a capacidade para a disputa. Desta forma, o conceito de “contexto de referência” não é apropriado aos países periféricos quando o segundo momento da ação não acontece, ou seja, a disputa por espaço no campo de poder. Assim, fica reduzido ao que já chamei em outra ocasião de wallpaper, ou seja, a aplicação do conceito de “contexto de referência” de maneira pseudo-objetiva contribui, na verdade, para a manutenção da posição de supremacia do centro na relação centro-periferia.

Com isso, pretende-se não ignorar as diferentes condições de agentes e instituições presentes no campo científico, pois a estrutura de distribuição do capital define as disposições entre dominantes e dominados. Também não se requer para o campo científico a autonomia ou a neutralidade, preconizadas por abordagens positivistas da sociologia da ciência. Também se reconhece que as definições no campo não cabem exclusivamente a especialistas – cientistas/pesquisadores – e que tampouco é inócuo o que se produz ou se legitima naquele campo.

Em tempos de globalização, onde a ciência e a tecnologia se tornaram elementos fundamentais, a disputa amplia-se enormemente, com conseqüências para todo o conjunto da sociedade e da própria organização do sistema mundial. Portanto, há que recuperar as noções da estrutura centro-periferia do sistema mundial e das peculiaridades do subdesenvolvimento. É sobre este pano de fundo que se pensa a referenciação da academia ao contexto internacional da produção do conhecimento.

Não se pode ignorar que, em razão de capitais acumulados, de todos os tipos, há forte tendência de dominância dos países centrais no campo científico e, por via de conseqüência, que a legitimidade ali construída corresponda a seus interesses. Sob esse ângulo, a divisão internacional do trabalho agora se dá entre aqueles que produzem conhecimento e aqueles que o consomem, reproduzindo-o mimeticamente.

Neste sentido, a referenciação ao contexto internacional é tomada como forma de estar no campo e de investir e acumular ali o capital necessário para se estabelecer como agente.

Tornou-se um truísmo a afirmação de que ciência é poder e, por via de conseqüência, que as organizações que a produzem têm elevada capacidade de intervenção no processo de desenvolvimento. No entanto, países periféricos, como o Brasil, que têm nas universidades, a base fundamental e quase exclusiva de sua produção científica e tecnológica, apresentam indicadores econômicos e sociais que mostram uma lacuna entre o discurso institucionalizado e a realidade social, especialmente se contemplados regionalmente.

Neste aspecto, cabe destacar o trabalho de Shenhav e Kamens (1991)**, sobre a institucionalização de um padrão de ciência determinado pelos países industrializados, isomorficamente seguido por países sub-desenvolvidos e em desenvolvimento. Seus resultados demonstram que, na realidade, não se confirmam as proposições de correlação positiva entre o grau de institucionalização e o desenvolvimento econômico, sob perspectiva neoclássica.

No entanto, afirmam que a legitimidade alcançada em decorrência do processo isomórfico pode contribuir, ao longo do tempo, para aumentar o potencial de crescimento econômico, estimulado por investimentos estrangeiros.

A contradição entre os resultados e a conclusão dos autores reafirma os pressupostos do modelo neoclássico de desenvolvimento (crescimento, em longo prazo, conduz ao desenvolvimento) e sugere neutralidade da origem dos investimentos. No entanto, demonstra que a ciência produzida nos países periféricos está razoavelmente contextualizada com a produção científica mundial, o que permite inferir que as organizações produtoras referenciam-se a um contexto institucional global. Mas perdem capacidade de intervenção por não se vincularem ao contexto nacional. Evidencia-se, assim, o requisito da articulação global-local para promoção do desenvolvimento.

Colocar as universidades brasileiras, que têm papel absolutamente central no sistema científico e tecnológico do país, como eixo da articulação global-local pode, portanto, contribuir para a construção de novas formas de pensar e agir sobre o desenvolvimento. Ao mesmo tempo, o exercício teórico-empírico acrescenta contribuições ao campo da teoria social e organizacional e à busca de soluções para problemas complexos e relevantes da sociedade.



* Maiores aprofundamentos sobre a questão central desenvolvida neste artigo, bem como suas decorrências, podem ser encontradas em “Universidades e Desenvolvimento: uma perspectiva institucional”, de Sueli Goulart, Marcelo Milano Falcão Vieira e Cristina Amélia Carvalho, publicado pela editora Sagra-Luzzato, Porto Alegre, 2005.

** SHENHAV, Yehouda A.; KAMENS, David H. The ‘costs’ of institutional isomorphism: science in non-western countries. Social Studies of Science, v. 21, p. 527-545, 1991.

Marcelo Milano Falcão Vieira
Mestrado em Administração Pública
Fundação Getúlio Vargas
Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas




VIII ENGEMA - Encontro sobre Gestão Empresarial, Meio Ambiente e Responsabilidade Social
A cada biênio, a FEA/USP e a FGV/EAESP realizam o tradicional encontro. Este ano ele é realizado pela primeira vez fora da cidade de São Paulo. O evento terá sede na EBAPE/FGV, localizada no Rio de Janeiro. O ENGEMA ocorre no período de 9 a 11 de novembro de 2005. Outras informações podem ser obtidas em www.ebape.fgv.br/engema.


FUCAPE em destaque

Aridelmo Teixeira (Diretor da FUCAPE), passa a fazer parte do Conselho Editorial da Revista Gestão de Custo & Desempenho, que será lançada neste ano; Alexsandro Broedel (Diretor de Pesquisas), foi nomeado consultor do Banco Mundial; Arilton Teixeira (Diretor de Cursos), teve artigo recém publicado na Review of Economic Dynamics, com o título “Política Comercial e Adoção de Tecnologia”. Além disto, a FUCAPE está lançando diversas publicações, dentre as quais a versão em inglês da BBR - Brazilian Business Review, a primeira revista científica eletrônica de padrão internacional (http://www.bbronline.com.br/); o 'FUCAPE Debates”, informativo que visa fomentar o debate econômico e torná-lo acessível à sociedade.



Método do Estudo de Caso na FEAD-Minas
O Núcleo de Pós-Graduação FEAD-Minas realiza, no dia 20 de agosto de 2005, a palestra Método do Estudo de Caso, com o Prof. Dr. Omar Aktouf, do Departament of Management/HEC-Montreal (Canadá). O evento ocorre a partir das 8h30min às 12h. Omar Aktouf é autor de livros como Pós-Globalização, Administração e Racionalidade Econômica. O site da FEAD é http://www.fead.br/.

Pós-Graduação em Agronegócios
O programa de Pós-Graduação em Agronegócios (PPG-Agronegócios), vinculado ao Centro de Estudos e Pesquisas em Agronegócios da UFRGS, disponibiliza informações sobre o processo seletivo 2005/2006,  a partir do mês de setembro, em seu site http://www.ufrgs.br/cepan/. O PPG-Agronegócios tem por objetivo a promoção do desenvolvimento do conhecimento científico e tecnológico e a formação de recursos humanos para a área.

Mestrado em Administração Pública
A Fundação João Pinheiro abre inscrições para o Curso de Mestrado em Administração Pública , no período de 29 de agosto a 13 de setembro de 2005. O curso objetiva a formação teórica e técnica de alto nível dos profissionais que atuam na esfera pública, em centros de pesquisa e de ensino superior e atividades afins. O curso é recomendado pela Capes para integrar o Sistema Nacional de Pós-Graduação. Maiores informações no site http://www.eg.fjp.mg.gov.br.

Professores da FURB são destaque na Espanha
O artigo Identificação de Atributos Críticos de Sucesso em Produtos e Serviços, escrito pelos Professores Gérson Tontini e Amélia Silveira, do Programa de Pós-Graduação em Administração da FURB, foi considerado o melhor artigo na 24ª edição da Business Association of Latin American Studies-BALAS, conferência realizada em Madri, Espanha, entre os dias 25 e 28 de maio de 2005.

Seleção para Mestrado na Ufes
O Mestrado em Administração da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) abre inscrições no período de 26 de setembro a 5 de outubro para a seleção da turma de 2006. O curso orienta-se por princípios de flexibilidade, inovação, agilidade e consistência na proposta curricular e nas estratégias de aprendizagem, voltadas à gestão de organizações públicas e privadas e à docência de Administração. Maiores informações: www.ppgadm.ufes.br ou ppgadm@npd.ufes.br">ppgadm@npd.ufes.br.

FUCAPE Business School implanta fundo de financiamento inédito
A FUCAPE Business School vai financiar os melhores projetos e incentivar a elaboração de planos de negócios dos seus estudantes por meio do fundo FUCAPE Investimentos e Participações. A iniciativa é inédita no Brasil e está baseada nas diretrizes do Private Equity/Venture Capital (PE/VC), que investe em empresas iniciantes ou emergentes, com grande potencial de crescimento. Mais informações:  (27) 4009.4444.

Inscrições abertas na Ufla
As inscrições para o processo seletivo 2005/06 do Programa de Pós-graduação em Administração (mestrado e doutorado) da Universidade Federal de Lavras estarão abertas durante o mês de setembro. A orientação básica do PPGA/UFLA está refletida em três áreas de concentração conjugadas às linhas de pesquisa: Organizações, Estratégias e Gestão; Gestão Social, Ambiente e Desenvolvimento e Dinâmica e Gestão de Cadeias Produtivas. Outras informações no site www.prpg.ufla.br/administracao/admindex.htm.

Prêmio para o melhor trabalho
Jair Antonio Fagundes recebeu o prêmio de Melhor Trabalho de Negócios no Congresso Anual de Tecnologia da Informação – CATI 2005, realizado nos dias 29 e 30 de junho e 1º de julho de 2005, na EAESP/FGV. O premiado concluiu seu mestrado na Unisinos e apresentou o trabalho Gestão de Entidade Filantrópica com Utilização do Balance Scorecard, tendo como co-autores Fauzi de Moraes Shubeita e Jairo Bonapaz Felten.

Professor da Unisinos recebe menção de destaque
O Professor Paulo Renato Soares Terra, do Programa de Mestrado em Ciências Contábeis da Unisinos, recebeu Menção de Destaque na área de Finanças Corporativas do V Encontro Brasileiro de Finanças,  realizado em São Paulo nos dias 18 e 19 de julho. Seu trabalho mencionado, intitulado The Joint Determination of Capital Structure and Debt Maturity: Empirical Evidence from Latin America and Eastern Europe , tem co-autoria do Prof. Cesario Mateus, da Aarhus School of Business, Dinamarca.

Mackenzie recebe professora da Universidade Complutense de Madrid
Esteve presente, no mês de junho, no Programa de Pós-graduação em Administração de Empresas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a Profa. Dra. Maria Ros, da Universidade Complutense de Madrid.  A professora proferiu a palestra Los Valores Culturales, Nuevos Desarrollos Aplicados a las Organizaciones e discutiu parceria de pesquisa sobre a relação entre valores individuais, organizacionais e culturais.

Verão Brasil 2005 na EBAPE/FGV
A EBAPE/FGV recebeu, no  período de 13 de junho a 8 de julho, um grupo de 34 alunos de graduação do Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Monterrey, Campus de Guadalaraja, para um programa denominado Verão Brasil 2005. Os cursos foram ministrados em espanhol  ou inglês.

MBAs FUCAPE
As inscrições para o curso de MBA em Controladoria e Finanças da FUCAPE já estão abertas e podem ser feitas até o dia 30 de junho pelo site www.fucape.br, ou na sede da instituição, em Vitória. O resultado será divulgado no dia 6 de julho e as matrículas serão realizadas de 11 a 15 de julho; também o Espírito Santo terá o curso inédito de MBA em Recuperação de Empresas a partir de julho deste ano. Mais informações:  (27) 4009.4444.

EBAPE/FGV recebe especialista política
Durante a primeira quinzena de junho, por intermédio de bolsa de pesquisa da Fundação Fulbright/CNPq, a EBAPE/FGV recebeu como professora visitante  Judith Tendler. Ela é professora titular do Massachussets Institute of Technology (MIT), especialista nas áreas de avaliação de políticas públicas, políticas sociais e desenvolvimento internacional. O objetivo foi aumentar a interação intelectual entre a mestra e os pesquisadores da EBAPE.

Professor da EBAPE/FGV apresenta resultados de pesquisa
Por convite do Ministério da Ciência e Tecnologia, o Prof. Paulo Figueiredo, da EBAPE/FGV, apresentou os resultados da inédita pesquisa sobre gestão tecnológica e inovação em uma amostra de 18 dos mais importantes institutos de pesquisa e desenvolvimento da indústria de software no Brasil. A apresentação foi realizada em Brasília, no dia 7 de abril, durante a 22ª Reunião Ordinária do Comitê da Área de Tecnologia da Informação.

Gestão pública e cidadania em Pernambuco
O Programa de Estudos em Gestão Social , da EBAPE/FGV e o Programa Gestão Pública e Cidadania, da EAESP/FGV promoveram, no dia 10 de junho, o Seminário Gestão Pública e Cidadania no apoio ao Desenvolvimento Local: Um Estudo no Agreste Meridional de Pernambuco. O objetivo do seminário foi debater as perspectivas da gestão pública local, a partir da apresentação dos resultados dessa pesquisa, financiada pelo Programa Gestão Pública e Cidadania, Fundação Hewlett, Fundação Ford e o Propesquisa da EBAPE/FGV.

II Prêmio EBAPE-FGV/EMBRATUR
No dia 30 de junho, foi realizada a entrega do II Prêmio EBAPE-FGV/EMBRATUR de Monografias, Estudos e Reportagem no setor de Turismo e Hotelaria, na EBAPE/FGV. O prêmio tem o objetivo de estimular a reflexão teórica e as práticas concretas sobre o tema, de forma a monitorar as transformações, estimular o debate e elaborar propostas para o turismo brasileiro. Maiores informações sobre o prêmio podem ser obtidas na página do Núcleo de Estudos Avançados em Turismo e Hotelaria-NEATH: www.ebape.fgv.br/pp/neath

Comércio multilateral nas Américas em debate
No dia 27 de abril, a EBAPE/FGV recebeu o Dr. Gary Clyde Hufbauer, do Institute for International Economics, de Washington (EUA). Na ocasião, Dr. Hufbauer ministrou a palestra As Negociações da ALCA e o Comércio Multilateral nas Américas. O palestrante é um dos mais renomados pesquisadores norte-americanos nas áreas de comércio internacional, políticas de investimento, tarifas e sanções.


Ética e Sistematização da Avaliação de Trabalhos Científicos
Muito se tem discutido recentemente sobre o papel do avaliador de trabalhos científicos, como sempre acontece após a divulgação dos resultados do EnANPAD. Em uma feliz coincidência, a revista Organizações e Sociedade publicou, nos seus três últimos números, excelentes textos sobre o tema. O Primeiro artigo da série é de autoria da Professora Sônia Gondin, intitulado A Face Oculta Do Parecerista: Discussões Éticas Sobre O Processo De Avaliação De Mérito De Trabalhos Científicos. Esse trabalho discute a relação autor - avaliador, através de uma abordagem filosófica baseada em Kant e Dilthey. Gondim conclui que “Ao assumirmos o papel de avaliadores... devemos estar cientes de que nossa força moral tem suporte na opção de jamais abrir mão da virtude a favor do vício, pois o outro, aquele que está sendo avaliado e se encontra destituído de poder, não irá nos reconhecer atrás da face oculta”. Como bem se observa no texto da Professora, a tal “Face oculta” é, simultaneamente, necessária e perigosa.

Ao longo de quatro anos à frente da gestão científica dos Encontros Nacionais da ANPAD tive uma experiência muito rica sobre o tema, o que me sugere emitir algumas opiniões, explicitadas à diante.

A primeira réplica ao texto de Gondim é feita pelo Professor Hermano Thiry-Cherques que reconhece a validade do texto original ao questionar “O que dizer quando se concorda com a opinião de quem se deve criticar”? Apesar do questionamento, Thiry-Cherques avança na discussão e busca equacioná-la através de três sugestões de ordem prática: 1) Codificação de textos para que os nomes dos autores sejam desconhecidos tanto de pareceristas quanto de editores; 2) Compensação “não apenas simbólica” do trabalho de avaliador e 3) Avaliação de pareceres e de pareceristas.

Antes de mais nada, gostaria de salientar que comungo com as opiniões expressas por ambos os autores e aqui transcritas, embora seja necessário observar que a prática da avaliação cega não seja universalmente aceita nas esferas da avaliação científica de alto nível. Em áreas como a Química e a Física (talvez em todas as ciências exatas), os melhores periódicos e encontros científicos nacionais e internacionais não adotam a avaliação cega. É uma prática comum nessas áreas que os avaliadores venham a conhecer os currículos dos autores antes ou ao longo da avaliação dos textos. Cabe ainda observar que muitos periódicos e encontros dessas áreas usaram e preteriram o chamado blind review.

Mas, voltemos à discussão na área das ciências sociais. Após iniciar a redação deste breve texto, tomei conhecimento da tréplica de Gondin e de dois novos textos sobre o tema (um de Helmuth Krüger e outro de Roberto Patrus Pena) a serem publicados ainda no número 33 da O&S. Todos esse textos, mais uma vez, mergulham fundo na questão a partir de um arcabouço de conhecimento filosófico que não ouso discutir. O texto do Professor Krüger faz o fechamento de toda a série e diz: “Mantendo o ponto de vista da variabilidade de situações que se configuram na relação de autores com pareceristas, através de textos enviados para fins de avaliação, desejo observar, reiterando em parte sugestões desses três professores, que cinco normas gerais, nas quais componentes de ordem técnica e de cunho moral se misturam, deveriam ter sua aplicação prevista em qualquer situação”:
1- “O processo de avaliação deve ser duplamente anônimo”;
2- “Da avaliação de um trabalho deveriam participar dois pareceristas independentes e desconhecidos entre si”;
3- “havendo discordância... o mesmo trabalho desacompanhado das avaliações por ele já recebidas, seria encaminhado a um terceiro parecerista, igualmente anônimo”;
4- “no caso de haver objeções, críticas e pedidos de reformulação de conteúdo... cabe ouvir o autor”;
5- “ao consultor ou parecerista deve ser concedida a autonomia necessária à recusa de trabalhos pouco relacionados a seu conhecimento...”.

O que se observa nas propostas apresentadas é que as mesmas avançam detalhando a primeira proposta de Thiry-Cherques, embora ignorando aquelas relativas à avaliação de pareceristas e de sua eventual compensação.

A esta altura, cabe analisar os possíveis rebatimentos, convergências e divergências das sugestões apresentadas sobre os processos de avaliação de nossos periódicos e encontros.

Nos quatro anos em que fui Diretor Científico da ANPAD tive, sempre, minha maior preocupação exatamente sobre essa questão: Como avaliar, no Brasil, três mil trabalhos científicos nas áreas de administração e contabilidade, com qualidade e isenção, em apenas cerca de quarenta dias?

Por tradição, mantivemos, naquele período, o rigor das “avaliações de formato” buscando observar o atendimento, por parte dos autores, das características da formatação de textos exigidas nas chamadas de trabalhos. Essa tarefa, apesar de muito trabalhosa, tem uma natureza bastante repetitiva, sendo, por essa razão, realizada por pessoal contratado, embora tendo, sempre, a palavra final quanto à exclusão de trabalhos na pessoa do Diretor Científico. Necessário se faz apontar que nesses encontros, nem mesmo o Diretor Científico tem acesso às autorias de trabalhos. O sistema informatizado limita o acesso de cada usuário a determinadas áreas de informação e somente a Secretária Executiva da organização tem acesso aos nomes dos autores. No caso dos periódicos, por outro lado, certamente não é esta a prática corrente. Assim sendo, pode-se, desde já, afirmar que a primeira sugestão de Thiry-Cherques e também a de Krüger são atendidas há alguns anos no âmbito dos EnANPADs.

No que tange ao conteúdo dos trabalhos submetidos aos encontros, por outro lado, não havia como buscar uma padronização de processo, ao estilo do que ocorre na “avaliação de formato”. Então, como tornar mais equânime e justa a avaliação daquela enorme quantidade de trabalhos de qualidades e origens tão distintas?

O primeiro passo foi trabalhar arduamente em uma questão polêmica, a objetivação da avaliação. Como resultado de dezenas de horas de discussões chegamos (diretoria e coordenadores da ANPAD), no início de 2001, a um conjunto de dez quesitos a serem avaliados através de uma escala numérica.

O segundo passo foi buscar um método estatístico que pudesse amenizar as discrepâncias naturais no rigor com que centenas de avaliadores envolvidos no processo realizavam suas tarefas. Para minha surpresa, na época, esta foi a etapa menos polêmica de toda a experiência e a aceitação do Escore Z sobre o conjunto de avaliações de cada avaliador teve aceitação bastante ampla na comunidade. Apesar da validade da escolha então adotada, é necessário observar que essa metodologia não resolveu totalmente o problema a que se destinava. Seu principal entrave foi, e permanece sendo, a distribuição não aleatória dos trabalhos por parte dos coordenadores das áreas temáticas.

A terceira medida adotada teve motivação ética, e conformou-se em um programa que fazia com que o sistema de informações dos encontros, automaticamente bloqueasse o envio de trabalhos para avaliadores que residissem no mesmo estado dos autores. Este algoritmo, excepcionalmente, era bloqueado quando algum coordenador de área justificava pontualmente os casos em que isso se fazia necessário. O que se vê aqui, portanto, é uma extrapolação da sugestão dos autores mencionados.

Cabe observar que nos dois primeiros anos de funcionamento do sistema recebi duras reclamações de autores que se consideravam injustiçados. Surpreendentemente, na época, muitos não o faziam em função dos trabalhos “não selecionados” (o que seria até certo ponto justificável), mas sim pelo “brilhante currículo do autor” cujo trabalho não havia sido selecionado. Aqui, o foco da questão ética, discutida nos artigos citados, transfere-se do avaliador para a figura do autor.

Com o passar dos anos, esses episódios tornaram-se raros. Não obstante, surgiram outras questões éticas, muito críticas, com relação ao papel do autor, como por exemplo, trabalhos que tinham apenas o título, ou pouco mais que isso, alterados de um ano para outro, ou ainda pior, de uma área de submissão para outra!

Em 2003, foi introduzido no sistema um novo algoritmo que alertava o coordenador de área sempre que um trabalho recebia avaliações muito discrepantes (diferença de avaliação média maior ou igual a cinco) entre dois avaliadores. Nesses casos o próprio coordenador de área deveria atuar como referee, fazendo a terceira avaliação (nesses casos, as três avaliações eram computadas pelo sistema). Esta medida atendia, portanto à terceira sugestão de Krüger.

No início do quarto ano de nossa gestão, foi feita uma análise estatística que demonstrou que dois, dos dez quesitos de avaliação criados três anos antes, eram utilizados de forma equivalente pelos avaliadores. Resultou que, naquele ano, foram agregados os quesitos “Relevância do tema” e “Originalidade do trabalho”, passando o sistema a considerar nove notas para cada avaliação, e não mas os dez quesitos anteriores. Também nesse último ano de gestão discutimos, diretoria e coordenadores de área, a possibilidade de avaliarmos objetivamente o trabalho dos pareceristas dos encontros e premiarmos aqueles que melhor exerciam esta função. Neste ponto, minha proposta (alinhada com a segunda e a terceira propostas do Professor Thiry-Cherques) foi parcialmente derrotada pela opinião dos coordenadores de áreas temáticas e, embora o acompanhamento e avaliação do trabalho dos avaliadores passassem a ser uma função explícita dos coordenadores de áreas, sua não sistematização levou a um resultado, em minha opinião, pífio. Assim, duas das sugestões do Professor Thiry-Cherques continuam a ser “elos perdidos” em nosso sistema de avaliação: a análise criteriosa do trabalho de avaliação e, principalmente, a recompensa por esse trabalho.

Atuando há alguns anos como referee do encontro da Academy of Management, vejo, nesse grande evento internacional, alguns procedimentos ainda a serem seguidos por nós. Por exemplo, ao final da avaliação de cada ano, a Academy envia a cada referee todas as avaliações feitas por ele, juntamente com aquelas feitas pelas outros avaliadores que analisaram o mesmo conjunto textos. Não é raro receber avaliações de cinco, seis, ou mais páginas sobre um único artigo. Certamente, tal dedicação por parte dos referees é louvável, atendendo aos anseios subjacentes ao texto original da Professora Gondin e também à terceira proposta do Professor Thiry-Cherques, já que a Academy premia anualmente e em cada uma de suas áreas temáticas os melhores avaliadores do ano. Cabe então perguntar novamente, porque não fazemos o mesmo? Por que o abnegado (e, admitamos, às vezes não tão ético) trabalho de parecerista não é mais valorizado, menos discreto e pontual, em nossos sistemas de avaliação? Ou seja, por que não avaliá-los e premiá-los de forma sistemática?

Já que o título desta coluna é “Opinião”, ouso exprimir a minha, dizendo que penso que uma boa avaliação, idealmente, deveria, até mesmo, ser pontuada no sistema de avaliação da CAPES. Em uma atitude assumidamente leniente (e temporária), porém, deixo ao leitor o papel de pensar em como fazê-lo...

Entre as três proposições de Thiry-Cherques e as cinco sugestões de Krüger, portanto, os encontros da ANPAD, em princípio, deixam de atender apenas àquela relativa a “ouvir o autor” quando das objeções e críticas. Nesse sentido, cabe ainda lembrar que o último texto publicado nesse espaço, pelo Professor Walter Moraes, atual Diretor Científico da ANPAD, diz: “ Há de se pensar, para os próximos encontros, em uma pré-seleção talvez de resumos expandidos e posterior submissão de trabalhos completos para os melhores avaliados”. Tal idéia equivaleria, dadas às circunstâncias, se não exatamente a “ouvir o autor”, ao menos a ter alguma interação com o mesmo e caminhar, portanto, no sentido da proposição do Professor Krüger.

Por fim, há de se reconhecer, como também fez o Professor Walter em seu texto, que com todo este “aparelhamento” de nossos processos de avaliação “ são reconhecidas as dificuldades em manter uma elevada consistência na qualidade e densidade acadêmica de análise nos pareceres emitidos”.

Toda esta discussão leva-me, portanto, às seguintes conclusões:
1 - É desejável que voltemos a discutir a avaliação sistemática e objetiva do trabalho dos pareceristas;
2 - Devemos pensar, tanto no âmbito da ANPAD como fora dela, em compensar ou premiar bons trabalhos de avaliação;
3 - Não devemos, jamais, esquecer e, portanto, sempre compreender, que por mais elaborados que sejam os processos de avaliação de trabalhos científicos, os resultados das avaliações, deles resultantes, sempre estarão atados ao conhecimento, à habilidade, à atitude e à ética de seres humanos pontualmente travestidos em avaliadores de trabalhos científicos.


Universidades e Desenvolvimento Local
Os Professores Sueli Goulart (UFPE), Marcelo Milano Falcão Vieira (EBAPE/FGV) e Cristina Amélia Carvalho (UFPE) lançam o livro Universidades e Desenvolvimento Local: Uma Abordagem Institucional, pela Editora Sagra Luzzatto. O livro contribui de forma decisiva para o aprimoramento da pesquisa empírica, pois destaca o papel central das organizações onde ocorrem os fenômenos observados, na formatação dos processos de mudança social, na sua velocidade e no seu alcance. Maiores informações sobre o livro podem ser obtidas em http://www.sagra-luzzatto.com.br.